Conceito do “Épico”.
A confrontação central entre
essas duas poéticas (hegeliana e brechtiana) se dá no conceito de liberdade do personagem, como já
veremos: para Hegel o personagem é inteiramente livre quer se trate da poesia
lírica, épica ou dramática; para Brecht (e para Marx) o personagem é objeto de
forças sociais. (p. 141).
Características da poesia dramática, sempre segundo Hegel.
Sobretudo, Hegel insiste em um
ponto fundamental que marcará sua profunda diferença com a poética marxista de
Brecht: “a ação não parece nascer de circunstâncias exteriores mas sim da
vontade interior e dos caracteres dos personagens”. Deste conflito surge o
desenlace, que deve ser, como a ação mesma, subjetivo e objetivo ao mesmo
tempo; depois do tumulto das paixões e ações humanas, sobrevém o repouso. Para que isto possa ocorrer, é necessário que
os personagens sejam livres, isto é,
é necessário que “os movimentos interiores da sua alma se possam exteriorizar
livremente, sem freios e sem qualquer tipo de limitação”. Em resumo, o
personagem é sujeito absoluto de suas
ações. (p. 145).
A má escolha de uma palavra.
A poética Marxista de Bertold
Brecht não só se contrapõe a uma ou outra questão formal, mas sim à verdadeira
essência da Poética idealista hegeliana, ao afirmar que o personagem não é sujeito absoluto e sim objeto de forças econômicas, ou sociais, às quais responde, e em
virtude das quais atua (...) Exemplo: “Kennedy invadiu a Praia Girón.” Aqui o
sujeito hegeliano é “Keneddy”, cujos movimentos interiores do seu espírito se
exteriorizaram de forma a ordenar a invasão de Cuba (...) Se fizermos agora uma
análise lógica da ação dramática segundo uma poética marxista, como a que
propões Brecht, a frase que a explicaria deveria necessariamente conter uma
oração principal e uma oração subordinada e nesta o personagem “Kennedy”
continuaria sendo sujeito, mas o sujeito da oração principal seria outro. Esta
frase seria mais ou menos assim: “Forças econômicas determinaram que o
presidente Kennedy invadisse a Praia Girón!” Creio que está claro o que propõe
Brecht: o verdadeiro sujeito são as forças econômicas que atuaram atrás de
Kennedy. A oração principal, nesta poética, é sempre uma inter-relação de
forças econômicas. O personagem não é livre, em absoluto. É objeto-sujeito! (p. 149).
(...) Se, por um lado, para a
poética idealista, o pensamento condiciona o ser social, por outro lado, para a
poética marxista, o ser social condiciona o pensamento social. Para Hegel, o
espírito cria a ação dramática; para Brecht, a relação social do personagem
cria a ação dramática. Brecht se contrapõe a Hegel frontalmente, totalmente,
globalmente. Portanto é um erro utilizar, para designar sua Poética, um termo
que significa um gênero da Poética de
Hegel. A Poética brechtiana não é simplesmente épica: é marxista e,
sendo marxista, pode ser lírica, dramática ou
épica. Muitas de suas obras pertencem a um gênero, outras a outro e outras
ao terceiro. Na poética de Brecht existem peças líricas, dramáticas e também peças épicas. (p. 150).
Catarse e repouso, ou conhecimento e ação?
Diz Hegel: “Ao tumulto de paixões
e ações humanas, que constituem a obra dramática, sucede o repouso”. Aristóteles propõe o mesmo: um sistema de
vontades, que representam concretamente, individualmente, os valores éticos
justificáveis, entram em colisão, porque um dos personagens possui uma falha
trágica, ou comete um erro trágico. Depois da catástrofe, quando a falha é
purgada, necessariamente volta a serenidade, é restabelecido o equilíbrio. Os
dois filósofos parecem dizer que o mundo retoma sua perene estabilidade, seu
infinito equilíbrio, seu eterno repouso. (ps. 161 e 162).
Brecht era marxista: por isso,
para ele, uma peça de teatro não deve terminar em repouso, em equilíbrio. Deve,
pelo contrário, mostrar por que caminhos se desequilibra a sociedade, para onde
caminha, e como apressar sua transição. Num estudo sobre teatro popular, Brecht
afirma que o artista popular deve abandonar as salas centrais e dirigir-se aos
bairros, porque só aí vai encontrar os homens que estão verdadeiramente
interessados em transformar a sociedade; nos bairros, deve mostrar suas imagens
da vida social aos operários, que estão interessados em transformar essa vida
social, já que são suas vítimas. (p. 162).
O demais não importa: são pequenas diferenças formais entre os três gêneros.
Por exemplo: no que se refere ao
equilíbrio entre a subjetividade e a objetividade, também pode ocorrer o
predomínio objetivo (épica), subjetivo (lírica) ou o equilíbrio (dramática)
(...) Enquanto à tendência a concentrar a ação, o tempo e o lugar, observado
por Brecht nas Poéticas anteriores, isso é verdade apenas no que se refere às
peças “dramáticas” anteriores (...) A concentração a que se refere Brecht é
própria tão-somente do gênero dramático e está totalmente excluída dos gêneros
lírico e épico. Mas é própria do gênero dramático nas duas Poéticas, idealista ou materialista, hegeliana ou marxista.
(ps. 167 e 168).
Empatia ou osmosis?
Mas existe aqui algo monstruoso:
o homem, quando elege, elege em uma situação real, vital, elege em sua própria
vida; o personagem, quando elege (e por isso, quando induz o homem a eleger),
elege em uma situação fictícia, irreal, desprovida de toda densidade de fatos,
matizes e complicações que a vida oferece. Isto faz com que o homem, real,
eleja segundo situações e critérios irreais. (p. 171).
A empatia funciona mesmo que
exista uma colisão de interesses entre o universo fictício e o universo real
dos espectadores. Por isso existe censura: para impedir que um universo indesejável se justaponha ao
universo dos espectadores. (p. 172).
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