quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Fichamento do capítulo "HEGEL E BRECHT: PERSONAGEM-SUJEITO OU PERSONAGEM-OBJETO?" do livro ‘TEATRO DO OPRIMIDO E OUTRAS POÉTICAS POLÍTICAS’, de Augusto Boal.

Conceito do “Épico”.

A confrontação central entre essas duas poéticas (hegeliana e brechtiana) se dá no conceito de liberdade do personagem, como já veremos: para Hegel o personagem é inteiramente livre quer se trate da poesia lírica, épica ou dramática; para Brecht (e para Marx) o personagem é objeto de forças sociais. (p. 141).

Características da poesia dramática, sempre segundo Hegel.

Sobretudo, Hegel insiste em um ponto fundamental que marcará sua profunda diferença com a poética marxista de Brecht: “a ação não parece nascer de circunstâncias exteriores mas sim da vontade interior e dos caracteres dos personagens”. Deste conflito surge o desenlace, que deve ser, como a ação mesma, subjetivo e objetivo ao mesmo tempo; depois do tumulto das paixões e ações humanas, sobrevém o repouso. Para que isto possa ocorrer, é necessário que os personagens sejam livres, isto é, é necessário que “os movimentos interiores da sua alma se possam exteriorizar livremente, sem freios e sem qualquer tipo de limitação”. Em resumo, o personagem é sujeito absoluto de suas ações. (p. 145).

A má escolha de uma palavra.

A poética Marxista de Bertold Brecht não só se contrapõe a uma ou outra questão formal, mas sim à verdadeira essência da Poética idealista hegeliana, ao afirmar que o personagem não é sujeito absoluto e sim objeto de forças econômicas, ou sociais, às quais responde, e em virtude das quais atua (...) Exemplo: “Kennedy invadiu a Praia Girón.” Aqui o sujeito hegeliano é “Keneddy”, cujos movimentos interiores do seu espírito se exteriorizaram de forma a ordenar a invasão de Cuba (...) Se fizermos agora uma análise lógica da ação dramática segundo uma poética marxista, como a que propões Brecht, a frase que a explicaria deveria necessariamente conter uma oração principal e uma oração subordinada e nesta o personagem “Kennedy” continuaria sendo sujeito, mas o sujeito da oração principal seria outro. Esta frase seria mais ou menos assim: “Forças econômicas determinaram que o presidente Kennedy invadisse a Praia Girón!” Creio que está claro o que propõe Brecht: o verdadeiro sujeito são as forças econômicas que atuaram atrás de Kennedy. A oração principal, nesta poética, é sempre uma inter-relação de forças econômicas. O personagem não é livre, em absoluto. É objeto-sujeito! (p. 149).

(...) Se, por um lado, para a poética idealista, o pensamento condiciona o ser social, por outro lado, para a poética marxista, o ser social condiciona o pensamento social. Para Hegel, o espírito cria a ação dramática; para Brecht, a relação social do personagem cria a ação dramática. Brecht se contrapõe a Hegel frontalmente, totalmente, globalmente. Portanto é um erro utilizar, para designar sua Poética, um termo que significa um gênero da Poética de Hegel. A Poética brechtiana não é simplesmente épica: é marxista e, sendo marxista, pode ser lírica, dramática ou épica. Muitas de suas obras pertencem a um gênero, outras a outro e outras ao terceiro. Na poética de Brecht existem peças líricas, dramáticas e também peças épicas. (p. 150).

Catarse e repouso, ou conhecimento e ação?

Diz Hegel: “Ao tumulto de paixões e ações humanas, que constituem a obra dramática, sucede o repouso”. Aristóteles propõe o mesmo: um sistema de vontades, que representam concretamente, individualmente, os valores éticos justificáveis, entram em colisão, porque um dos personagens possui uma falha trágica, ou comete um erro trágico. Depois da catástrofe, quando a falha é purgada, necessariamente volta a serenidade, é restabelecido o equilíbrio. Os dois filósofos parecem dizer que o mundo retoma sua perene estabilidade, seu infinito equilíbrio, seu eterno repouso. (ps. 161 e 162).
Brecht era marxista: por isso, para ele, uma peça de teatro não deve terminar em repouso, em equilíbrio. Deve, pelo contrário, mostrar por que caminhos se desequilibra a sociedade, para onde caminha, e como apressar sua transição. Num estudo sobre teatro popular, Brecht afirma que o artista popular deve abandonar as salas centrais e dirigir-se aos bairros, porque só aí vai encontrar os homens que estão verdadeiramente interessados em transformar a sociedade; nos bairros, deve mostrar suas imagens da vida social aos operários, que estão interessados em transformar essa vida social, já que são suas vítimas. (p. 162).

O demais não importa: são pequenas diferenças formais entre os três gêneros.

Por exemplo: no que se refere ao equilíbrio entre a subjetividade e a objetividade, também pode ocorrer o predomínio objetivo (épica), subjetivo (lírica) ou o equilíbrio (dramática) (...) Enquanto à tendência a concentrar a ação, o tempo e o lugar, observado por Brecht nas Poéticas anteriores, isso é verdade apenas no que se refere às peças “dramáticas” anteriores (...) A concentração a que se refere Brecht é própria tão-somente do gênero dramático e está totalmente excluída dos gêneros lírico e épico. Mas é própria do gênero dramático nas duas Poéticas, idealista ou materialista, hegeliana ou marxista. (ps. 167 e 168).

Empatia ou osmosis?

Mas existe aqui algo monstruoso: o homem, quando elege, elege em uma situação real, vital, elege em sua própria vida; o personagem, quando elege (e por isso, quando induz o homem a eleger), elege em uma situação fictícia, irreal, desprovida de toda densidade de fatos, matizes e complicações que a vida oferece. Isto faz com que o homem, real, eleja segundo situações e critérios irreais. (p. 171).


A empatia funciona mesmo que exista uma colisão de interesses entre o universo fictício e o universo real dos espectadores. Por isso existe censura: para impedir que um universo indesejável se justaponha ao universo dos espectadores. (p. 172).

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