Teatro e/ou educação?
Elliot Eisner distingue duas
categorias de justificativas para o ensino da arte que têm determinado sua
função educacional. A abordagem mais difundida na história da arte-educação é designada
pelo autor como “contextualista”, que enfatiza as conseqüências instrumentais
da arte na educação e utiliza as necessidades particulares dos estudantes ou da
sociedade para formular seus objetivos. Dentro da orientação contextualista,
alguns programas ressaltam as necessidades psicológicas das crianças na
articulação de seus objetivos e outros, as necessidades sociais. (18).
Com o objetivo de convencer os
professores tradicionais de que uma abordagem criativa da arte dramática não é
apenas desejável mas também essencial para a criança, passou-se a negar os
valores teatrais da atividade. De fato, especialistas na área definem títulos e
termos alternativos para enfatizar a diferença entre Teatro, como arte adulta,
e o jogo dramático, manifestação espontânea da criança. (p. 21).
A área carece da caracterização
de conteúdos específicos, substituídos na maioria das vezes por objetivos
educacionais amplos, que poderiam ser atingidos por qualquer outro campo de
estudo. (p. 23).
(...) A generalidade destes objetivos
e a ênfase no desenvolvimento da personalidade resulta talvez de um preconceito
que ainda hoje cerca o ensino do teatro. À idéia de que a educação dramática é
um treinamento para o palco, professores opõem o argumento de que na aula de
teatro a criança é levada a brincar dramaticamente, sendo que o teatro aparece
por acidente e jamais como um valor. É a partir da justificativa de formação
integral do educando que o teatro passou a ser tolerado no currículo escolar,
sem que o preconceito chegasse a ser questionado no seu fundamento. (p. 24).
(...) A oposição ao teatro é
sempre fundamentada nos aspectos formais que o espetáculo impõe à atuação e que
são exteriores à criança. O aluno que simplesmente decora um texto clássico e o
espetáculo que se preocupa apenas com a produção não refletem valores
educacionais, se o sujeito da representação não foi mobilizado para uma ação
espontânea. Mas a visão puramente espontaneísta também corre o risco de reduzir
a proposta de educação artística a objetivos meramente psicológicos, o que
afasta a possibilidade de entender a arte como forma de conhecimento. (p. 25).
A função simbólica.
Mas para se chegar a uma
definição dos objetivos específicos do teatro no processo da educação, torna-se
necessário verificar como o desenvolvimento da inteligência se relaciona com a
linguagem e com o discurso (...) A imaginação dramática está no centro da
criatividade humana e, assim sendo, deve estar no centro de qualquer forma de
educação. A característica principal do homem, quando comparado com os primatas
superiores, é sua imaginação, ou seja, sua capacidade de fazer símbolos – a
representação de um objeto, evento ou situação na ausência desse. (ps. 27 e
28).
A atividade artística é
periférica ao sistema escolar e lhe é atribuída a característica de
“recreação”, quando não é submetida a exercícios de coordenação motora. Se
considerarmos que o símbolo elaborado pelo indivíduo através da imitação, do
jogo, do desenho, da construção com materiais possui significado lógico,
sensorial e emocional, podemos concluir que, pelo contrário, a educação
artística constitui o próprio cerne do processo educacional. Os instrumentos
semióticos podem ser utilizados com objetivos sérios de aprendizagem e
propiciar respostas altamente organizadas, que as crianças ainda não são
capazes de devolver através do pensamento racional e do discurso. (ps. 29 e
30).
O símbolo na Arte.
Para Cassier, a arte não é mera
repetição da vida e da natureza mas sim uma espécie de transformação que
depende de um ato autônomo e
específico da mente humana e que é gerado pelo poder da forma estética. A forma
estética não é portanto simplesmente dada, não equivale aos dados do nosso
mundo empírico imediato. Para nos tornarmos conscientes da forma estética,
devemos produzi-la (...) Se aceitarmos que a atitude estética é decorrência de
uma necessidade básica do ser humano que é a versão simbólica da experiência, o
caráter de distanciamento da vida corrente não significa evasão ou substituição
do real por uma esfera fantasiosa mas a evocação de uma realidade na ausência
de qualquer objetivo habitual. (p. 31).
A evolução do símbolo na criança.
Na criança, o símbolo não está
inicialmente emancipado como instrumento do próprio pensamento. É a conduta, ou
o esquema sensório-motor, e não a imagem ou pensamento, que faz a vez de
símbolo. (p. 33).
A proximidade entre jogo e
símbolo se evidenciam na sua gênese no ser humano. A “função simbólica” é
constituída a partir do momento em que a criança representa um ato, uma ação,
na ausência do seu contexto habitual. Essa representação em ato tem o
significado de um primeiro distanciamento da “vida corrente” (experiência
imediata). O ritual de dormir é “imitado” na ausência do seu objetivo prático.
A criança realiza uma ação mimética, que constitui por assim dizer a primeira
imagem, que nesse momento ainda não é mental mas exteriorizada através da ação
ritualizada de dormir, que constitui o esquema sensório-motor. (p. 34).
Os jogos simbólicos coletivos
reforçam ou debilitam a crença de acordo com a idade. Nas crianças menores, o
jogo social é caracterizado pelo egocentrismo. Elas jogam sozinhas, sem se dar
conta de seu isolamento. É evidente que a vida social enfraquece a crença
lúdica, pelo menos sob sua forma especificamente simbólica – caso esse jogo não
seja desenvolvido culturalmente (teatro). Enquanto o jogo sensório-motor se
inicia nos primeiros meses e o jogo simbólico no segundo ano de vida, a fase
que vai dos sete/oito aos onze/doze anos, caracteriza-se, segundo Piaget, pelo
declínio evidente do jogo simbólico em proveito de jogo de regras. O jogo
simbólico chega ao fim com o próprio final da infância, enquanto o jogo de
regras, que é ignorado pelas crianças pequenas, durará até a idade adulta. (ps.
37 e 38).
Ao guiar a inclinação natural da
criança para a imitação e para o jogo, estamos favorecendo o seu
desenvolvimento intelectual. Na atividade de grupo, o jogo deve ser orientado e
governado por um objetivo coletivo, que auxilie a criança
a superar a fase egocêntrica e o subjetivismo individualista. O ensino do
teatro pode ser visto como uma fusão deliberada entre o jogo simbólico e o jogo
de regras. (p. 38).
O jogo teatral.
A evolução do jogo.
Spolin sugere que o processo de
atuação no teatro deve ser baseado na participação em jogos. Por meio do
envolvimento criado pela relação de jogo, o participante desenvolve liberdade
pessoal dentro do limite de regras estabelecidas e cria técnicas e habilidades
pessoais necessárias para o jogo. À medida que interioriza essas habilidades e
essa liberdade ou espontaneidade, ele se transforma em um jogador criativo. Os
jogos são sociais, baseados em problemas a serem solucionados. O problema a ser
solucionado é o objeto do jogo. As regras do jogo incluem a estrutura (Onde,
Quem, O Quê) e o objeto (Foco) mais o acordo de grupo. (p. 43).
(...) A passagem do jogo
dramático ou jogo de faz-de-conta para o jogo teatral pode ser comparada com a
transformação do jogo simbólico (subjetivo) no jogo de regras (socializado). Em
oposição à assimilação pura da realidade ao eu, o jogo teatral propõe um
esforço de acomodação, através da solução de problemas de atuação. (p. 44).
Ao mesmo tempo em que Spolin apresenta um
sistema que pretende regular e abranger a atividade teatral, ele existe para
ser superado e negado enquanto conjunto de regras. Os jogos teatrais constituem
portanto uma antididática que suscita uma questão. Como ter uma forma
planificada de ação se queremos encontrar uma liberdade de ação? O que é
criação, se ela supõe sempre algum sistema ou ordem? (p. 47).
A regra do jogo.
Qualquer jogo tradicional é
realizado a partir de um certo número de regras, aceitas para colocá-lo em
movimento. As regras estabelecidas entre os jogadores determinam uma relação de
parceria, que implica observação de determinadas leis que asseguram a
reciprocidade dos meios empregados para ganhar. Há, portanto, acordo de grupo
sobre as regras do jogo e interação, que ocorre a partir da busca de um
objetivo comum (...) A regra estabelece uma estrutura que prefigura o parâmetro
para a ação lúdica. (ps. 47 e 48).
(...) A função mais importante
que o jogo de regras cumpre no processo é o parâmetro claro que gera a
confiança necessária para jogar o jogo. Quando o indivíduo percebe que não
existe a imposição de modelos ou critérios de julgamento e que o esquema é
claro, reformulação do princípio que a
regra estabelece não parte de um sujeito individualmente, mas é passível de
transformação, se ela for a expressão da vontade geral. A relação autoritária
percebe a regra como lei. Na instituição lúdica, a regra pressupõe processo de
interação. (ps. 48 e 49).
O gesto espontâneo.
O termo “espontaneidade” exige
uma definição clara, para não tornar-se um conceito generalizante. Ação
espontânea não equivale simplesmente a ação livre (...) A espontaneidade
equivale à liberdade de ação e estabelecimento de contato com o ambiente. (pg.
51).
Improvisação de cenas.
O foco primário no Onde é estabelecido pela identificação
dos objetos físicos que o caracterizam. Para auxiliar na visualização do
ambiente, o grupo elabora uma planta-baixa do palco, onde relaciona os objetos,
organizando assim o espaço do jogo. À planta-baixa, que define o ambiente, são
acrescentados, através de acordo de grupo, Quem
está dentro desse espaço, e O Que
(uma atividade entre os jogadores). (p. 55).
(...) Toda didática sugere que,
seguindo um esquema de procedimentos, podemos adquirir uma maior compreensão da
matéria com a qual trabalhamos. A técnica de Jogos Teatrais propõe uma
aprendizagem não-verbal, onde o aluno reúne os seus próprios dados, a partir de
uma experimentação direta. Através do processo de solução de problemas, ele
conquista o conhecimento da matéria. O Foco é ao mesmo tempo um catalisador
para o jogo e uma forma de criar unidade orgânica na improvisação. (p. 64).
Projeto experimental com crianças e adolescentes.
A experiência com o Grupo de
adolescentes.
O adolescente é um marginalizado
do teatro brasileiro. Raras são as peças dirigidas especialmente a essa faixa
etária. Os espetáculos infantis lhes são monótonos e carentes de significado, e
o teatro “adulto”, que poderia propiciar uma experiência mais rica, torna-se
inacessível, pela presença da censura. A maior parte da população disponível
para o teatro está deliberadamente fora de seu alcance. (p. 78).
O teatro, enquanto proposta de
educação, trabalha com o potencial que todas as pessoas possuem, transformando
esse recurso natural em um processo consciente de expressão e comunicação. A
representação ativa e integra processos individuais, possibilitando a ampliação
do conhecimento da realidade. (p. 78).
Durante essa avaliação, foi
levantada pelos participantes uma questão, amplamente debatida: “Eu queria
saber se isso aqui tem alguma coisa a ver coma vida de cada um?” O próprio fato
de a pergunta ter sido colocada foi um índice claro de que havia continuidade
entre as percepções alcançadas nos encontros e a realidade de cada
participante. A discussão que se seguiu demonstrou que esse processo já se
havia iniciado. Através das declarações, evidencia-se que o jogo de
improvisação provocou o reconhecimento de contato mais direto com a realidade,
através da observação de situações e pessoas no cotidiano. (p. 79).
O processo com os jogos teatrais
provocou nos adolescentes a consciência do momento presente e a percepção da
realidade como algo em constante transformação. Uma outra característica do processo
de aprendizagem é a ausência de linearidade – os insights obtidos são transferidos para diversos níveis e situações,
espontaneamente. (p. 81).
Teatro para crianças.
Teatro infantil na década de
setenta.
(...) O espetáculo é
desmistificado e o envolvimento com a estória, constantemente rompido, para
mostrar a afinidade do teatro com o jogo espontâneo. Um momento exemplar está
na Lenda do Vale da Lua, de João das
Neves (1977), onde o espetáculo é desmontado diante da criança, que vê a
construção do jogo de teatro, através da desmistificação e demonstração de sua
linguagem. Os atores montam o cenário diante do público, discutem entre si
prosseguimento da estória e trocam até mesmo de papéis – são crianças que
brincam de papai, mamãe, filho e filha. (p. 97).
Os espetáculos desse período
apresentam características comuns: 1) utilização de sucata e materiais simples;
2) a função de transformação do material; 3) quebra de linearidade na narrativa
(estória); 4) ator assume vários papéis; 5) transformação do espaço; 6) atuação
baseada na relação de jogo; 7) quebra da quarta parede 3 8) processo de criação
coletiva e produção de grupos cooperativados. (p. 97).
A oficina de dramaturgia.
Ao romper a relação autoritária e
abandonar a pretensão de veicular uma tese, o artista adulto encontra no
próprio universo infantil a matéria para a formulação do espetáculo. Essa
transformação radical gerou necessariamente uma nova concepção de processo. Os
conceitos tradicionais de direção, atuação, cenografia, como atividades
compartimentadas deixaram de ter sentido, sendo substituídos pelo processo de
descoberta realizado em grupo, onde o jogo de improvisação incorpora esses
elementos numa criação orgânica (...) Em muitos casos, o texto serve apenas
como pretexto ou ponto de partida e o material da encenação é extraído do
processo de pesquisa e da criação coletiva. (p. 104).
Genoveva visita a escola ou a galinha assada.
De acordo com o modelo
epistemológico de Piaget, a criança tem uma relação dialética com a realidade
(...) Nesse processo, a criança passa de uma construção da realidade “egocêntrica”,
ou subjetiva, para uma concepção da realidade descentrada do eu. O resultado da
interação da criança com o ambiente é a estruturação do conhecimento. No pensamento
de Piaget, o conhecimento é derivado da ação, através da qual a criança “transforma”
a realidade para compreendê-la. (ps. 108 e 109).
(...) Ele não contém o processo. É
um membro do grupo e participa das descobertas, juntamente com as crianças. Sua
função é orientar, através de perguntas que são lançadas para o grupo. As interrogações
provocam o detalhamento das observações, estimulam o jogo, reafirmam o grupo,
trazem propostas novas, propõem momentos de síntese das observações. (p. 121).
O professor é o propulsor do
processo, que se inicia com a problematização de situações para o grupo, se
revela no envolvimento emocional e atinge o conflito, que significa não saber,
estar aberto para o processo de aprendizagem e é expresso conscientemente,
encontrando o desenlace ao compartilhar com as crianças o caminho percorrido.
(p. 121).
Caminhos do faz-de-conta.
Algumas idéias-chave são
essenciais para o entendimento do processo de Jogos Teatrais. A condição fundamental
é a criação coletiva onde os jogadores fazem parte de um todo orgânico motivado
pela ação lúdica. Aliada a essa condição está a eliminação dos papéis
tradicionais aluno/professor, dicotomia superada pelo princípio de parceria a
partir do qual é dissolvido o apelo da aprovação/desaprovação. Não existe
certo/errado, nem formas certas ou erradas para a cena. Cada cena é uma cena. (ps.
147 e 148).