O INTELECTO NO TEATRO.
A tragédia cessou de existir, em
última análise, quando o homem passou a considerar-se senhor do seu destino.
Tragédia clássica, ou seja, um contexto religioso, aceitando um destino
pré-organizado nos céus. Se Shakespeare foi o primeiro a observar esse fato,
isso se deve a um determinismo histórico (o seu gênio, claro, não cabe em tal
nicho). (p. 8).
TRAGÉDIA.
VERDADEIROS E FALSOS DEMÔNIOS.
Talvez a melhor maneira de
compreender esses dois movimentos diferentes seja a de considerar, em poucas
palavras, aquela falta humana que, segundo o pensamento grego, torna possível a
tragédia: hubris. Sem hubris não é muito provável que qualquer
personagem venha a ser destruído em uma tragédia; sem ser destruído, nenhum
personagem pode-se tornar divino, isto é, um demônio. Hubris, portanto, é uma coisa ambígua que pode levar à destruição,
mas que também pode conduzir ao que na concepção de uma mente grega seria algo
semelhante à graça. (p.17).
Isso não significa que o
protagonista de uma tragédia esteja disposto a ser destruído para tornar-se um
demônio. Muito pelo contrário, o protagonista trágico espera atingir fins
outros e mais humanos. Ele age, porém,como se fosse invulnerável; e é essa
ficção que o conduz à destruição. Na primeira peça de Édipo, de Sófocles, vemos
um exemplo perfeito de hubris. Édipo
anuncia que ele encontrará e punirá o assassino de Laio. Ele persiste, embora
aconselhado a não fazê-lo, até descobrir que ele próprio é o assassino que
jurou punir, bem como que o homem que ele assassinara é seu próprio pai. Tal
conhecimento o destrói. Ele se cega e se exila; mas não morre. (p. 18).
O DESTINO DE ATÁLIA – E RACINE.
O próprio Racine, sentindo que a
ausência da morte em sua peça poderia ser considerada como uma falta, argumenta
em seu prefácio que a morte não é indispensável à tragédia. Seu argumento é dos
mais interessantes. (p. 38).
Segundo Aristóteles, ele tem
razão, e Racine compreendia Aristóteles melhor do que qualquer outro autor
dramático de sua época. Torna-se por isso ainda mais surpreendente que Racine
tenha preferido não ver que o sacrifício de Erifília – tendo em vista seu
caráter – era tão contrário à concepção aristotélica da tragédia quanto teria
sido o de Ifigênia. Pois, enquanto o filósofo grego sustentava que a morte de
uma pessoa boa não seria trágica, por fazer o espectador sofrer demais, ele
sustentava também que a morte de uma pessoa má também não era trágica, já que
não poderia senão alegrar quem a testemunhasse. A verdadeira emoção trágica é
muito mais complexa. (p. 39).
É preciso alguma coisa melhor do
que uma razão para justificar uma morte. E isso é tão verdadeiro para a ação
real quanto para a imaginária. O que poderá justificar uma morte no palco? A
sensação de que a morte do personagem foi assim destinada. Mas o que quer dizer
a palavra destino? Se algum sentido
racional pudesse ser aplicado a esse termo, não existiria essa coisa chamada
tragédia. No entanto, como poderá o termo destino
ser compreendido, a não ser racionalmente? (p. 47 e 48).
Em Os Irmãos Karamazov, Fyodor Karamazov é morto, de fato, por seu
filho ilegítimo e epilético, Smerdyakov. O assassino real, é claro, é seu filho
mais velho Ivã, o qual deu a entender por certas indicações – porém não com
palavras claras – a Smerdyakov, que o admira, que ele, Ivã, ficaria satisfeito
com a morte do velho. Poderemos dizer que Ivã matou conscientemente o pai? Não.
Poderemos dizer que ele matou o pai sem saber? Também não. O assassínio do
velho Karamazov teria satisfeito Aristóteles inteiramente. Não existe nada de
tão sofisticado nem na dramaturgia antiga nem na moderna. Nenhum dramaturgo
ingênuo e simplório poderia ter produzido efeito semelhante. (p. 50).
Para quem não tiver simpatia pela
posição de Jojada, Athalie não é uma
tragédia, pois a forma da tragédia exige que nos solidarizemos tanto com o
carrasco quanto com a vítima. Isso foi sugerido por Aristóteles, quando disse
que a tragédia nos alivia da piedade e do terror, e tornado ainda mais claro
por James Joyce em The
PortraitoftheArtist as a Young Man, quando Stephen Daedalus, ao comentar a Poética de Aristóteles, diz que na
tragédia e piedade nos une ao sofredor, e o terror à causa do sofrimento. A
dificuldade da maioria dos dramaturgos em suas tentativas de produzir tragédia
não é tanto a de criar uma vítima pela qual possamos sentir simpatia, mas a de
criar um carrasco pelo qual possamos senti-la também. (p. 56 e 57).
METATEATRO.
HAMLET, Q. E. D.
Teria sido o Hamlet uma tragédia
se o fantasma houvesse dito a Hamlet para matar a sua mãe, além de Cláudio? Em
vez disso, como sabemos, o Fantasma proíbe expressamente Hamlet de molestar sua
mãe de qualquer modo, insistindo em que ele a “deixe para o céu”, e concentresuas
energias na morte do tio. Não é trágico, porém, matar um tio nem receber ordens
para tal, mesmo quando tais ordens são dadas pelo fantasma do pai de quem mata.
Hamlet, tão maduro para a tragédia em sua atitude e em seu caráter, com tão
perfeita predisposição para o papel que tem de desempenhar, é encarregado pelo
fantasma de seu pai de fazer uma coisa de consequências trágicas mínimas. (p.
64 e 65).
Todo filho não é forçado a ser
ator num roteiro escrito pelos pais? Eles o repreendem, espancam-no, vestem-no,
acariciam-no, dão-lhe ordens; ser filho quer dizer obedecer a certas instruções
(os atores são de modo geral um tanto infantis) é certo que Hamlet, como filho,
deve ter passado por tudo isso; porém, tendo trabalhado na peça dos pais, quase
todos os indivíduos desejam entrar em outra, quando crescerem. Além do mais,
não foi o pai de Hamlet o autor da situação na qual ele pede a Hamlet que
desempenhe seu papel; o autor dessa situação é o tio de Hamlet. Quem é que
poderia gostar de ser ator num sanguinolento espetáculo encenado por um tio
vilão? Por certo não Hamlet. (p. 72).
Polônio, que dramatiza a si mesmo
como sendo sábio, trata seu filho Laertes e sua filha Ofélia como se fossem
atores numa peça cujo sentido só ele compreende. Na famosa fala de conselhos
que Polônio diz para Laertes, ele chega até mesmo a dizer ao rapaz que tipo de
roupas ele deve usar, que tipo de imagem de si deve criar. Com muito mais ainda
em jogo, Polônio diz a Ofélia como testar as verdadeiras intenções de Hamlet em
relação a ela e em relação ao rei. Ofélia obedece às instruções do pai, porém
Hamlet, com sua sensibilidade para técnicas de encenação, percebe logo o que
está por trás de seu aspecto inocente. Polônio, que é capaz de dramatizar seu
filho e sua filha, não procura dramatizar Hamlet; isso porque Polônio, embora
seja dramaturgo amador, julga que Hamlet já está dramatizado, e que ele, Polônio,
conhece perfeitamente o enredo do drama em que Hamlet está atuando: Hamlet está
no momento apaixonado por Ofélia, não pode pensar em casar-se com ela, e por
isso está melancólico. Tudo o que Polônio faz emana dessa ilusão, na qual ele
acredita piamente, como acreditam todos os maus dramaturgos em seus enredos
primários. Finalmente, Polônio vai longe demais, quer espiar a cena violenta
entre Hamlet e sua mãe, e é morto por Hamlet, o qual o toma pelo rei. (p. 72 e
73).
Todos os personagens da peça podem
ser definidos do seguinte modo: alguns são fundamentalmente dramaturgos ou
pretensos dramaturgos, e os outros são fundamentalmente atores. Assim,
Gertrudes e Ofélia, bem como Laertes, são atores.; mas Hamlet, Cláudio, polônio
e o Fantasma são dramaturgos. Ainda há outro dramaturgo, a cuja dramaturgia, no
final, Hamlet se submeterá. Esse dramaturgo é a morte (...) Ele passa com
Horácio pelo cemitério, vê o Coveiro trabalhando, e encontra a caveira de
Yorick, o bobo da corte a quem havia amado. Nesse momento, Hamlet reconhece a
verdade daquele roteiro dramático no qual nenhum de nós se pode recusar a
trabalhar: a morte nos fará a todos teatrais, a despeito do que tenhamos ou não
feito em vida. À caveira é teatro puro. Uma máscara perfeita. Creio que é nesse
momento que Hamlet aceita a dramaturgia da morte, não a de seu pai nem a sua
própria. Ele agora está pronto para morrer, seja qual for a ocasião. (p. 74).
Hamlet fica louco? Ele avisa aos
amigos que poderá adotar uma “disposição esquisita”, mas bem podemos
perguntar-nos se o faz com qualquer intenção que não seja a de contornar a
falta de objetividade do enredo. Não há dúvida de que Hamlet se diverte em
fazer o papel de louco; ele gosta desse papel que ninguém lhe impôs. Mas nessa
loucura fingida ele encontra, é claro, um refúgio contra a seriedade de sua
tarefa. Como louco, Hamlet pode dizer ou fazer qualquer coisa que queira, a
qualquer momento. Disse-lhe o Fantasma que ele não devia expressar seus
sentimentos espontâneos; porém, fingindo-se de louco, Hamlet pode ser ele
mesmo. Já que a estrutura da peça na qual ele existe é tão indefinida, e tão
pouco de seu gosto, a única maneira que encontra de sair fora dela é
fingindo-se de louco. (p. 77).
Porém Shakespeare fez de sua peça
outra coisa, alguma coisa de tão extraordinário quanto uma tragédia. Deve ser
notado que Eliot ignora a originalidade do personagem e também da peça, na
qual, pela primeira vez na história do drama, o problema do protagonista é ter
ele a conscientização de um dramaturgo. Hamlet não é um adolescente; é a
primeira figura de palco com uma aguda consciência do que significa ser posto
num palco. Como ser dramatizado quando se tem a imaginação suficiente para ser
um dramaturgo? (p. 84).
METATEATRO: SHAKESPEARE E CALDERÓN.
Apenas algumas poucas peças
dizem-nos desde logo que os acontecimentos e personagens que nelas existem são
da invenção do dramaturgo, e que na medida em que foram descobertos – onde existe
a invenção também pode estar a descoberta – eles foram encontrados pela
imaginação do autor mais do que por sua observação do mundo. Tais peças trazem
em si a verdade, não por convencer-nos de ocorrências ou de pessoas existentes,
mas por mostrarem a realidade da imaginação dramática, exemplificada não só
pela do autor, mas também pelas de seus personagens. De tais peças pode ser
realmente dito: “A peça é que é a coisa”. Peças desse tipo, parece-me,
pertencem a um gênero especial e merecem um nome que as distinga. (p. 86).
Por certo as peças às quais
estou-me referindo não devem ser descritas de modo tão variado. Algumas delas
poderão, sem dúvida, ser classificadas como exemplos de uma
peça-dentro-de-outra-peça, porém tal termo, por mais bem conhecido que seja,
não sugere mais do que um recurso técnico, nunca uma forma definida. Além do
mais, desejo designar toda uma gama de peças, algumas das quais não usam uma
peça-dentro-de-outra-peça nem sequer como recurso técnico. No entanto, as peças
às quais me refiro tem em verdade uma característica comum: todas elas são
obras teatrais sobre a vida vista como já teatralizada. (p. 87 e 88).
GENET E O METATEATRO.
Vejamos por que razão a tragédia
não foi a forma característica dos teatros elisabetano e espanhol. Por que a
razão tem sido tantos autores ocidentais, decididos a escrever tragédia,
incapazes de o fazer com sucesso? Uma boa parte de suas dificuldades pode ser
resumida numa só palavra: autoconsciência. Primeiro, a autoconsciência do
dramaturgo; depois, a de seus protagonistas. Pois considerem: se Antígona
tivesse a autoconsciência de seus motivos para enterrar seu irmão Polinice,
seria trágica a sua estória? Ora, acontece que o dramaturgo ocidental é incapaz
de acreditar num personagem falto de autoconsciência. Ausência de
autoconsciência é tão característico de Antígona, Édipo e Orestes quanto a
autoconsciência o é de Hamlet, a figura dominante do metateatro ocidental. (p.
107 e 108).
Na metapeça sempre haverá um
componente fantástico. Pois nesse tipo de peça a fantasia é essencial, é justamente
aquilo que vamos encontrar no âmago da realidade. Em verdade podemos dizer que
a metapeça está para a fantasia comum assim como a tragédia está para o
melodrama. Assim como na tragédia as atribuições do herói tem de ser
necessárias, e não acidentais, na metapeça a vida tem de ser um sonho, e o mundo tem
de ser um palco. (p. 110).
Em Le Balcon o que Genet fez foi nada menos do que restaurar o valor
poético do figurino para o palco. Pois o fato é que, quando vemos aquelas
roupas sendo vestidas, podemos aceitá-las como os trajes necessários para
aqueles personagens, enquanto se eles já entrassem inteiramente vestidos,
ficaria tudo restrito a um trabalho do diretor e figurinista. O efeito
alcançado por Genet por meio da utilização do recurso metateatral de estarmos
presentes ao ato dos personagens se vestirem é semelhante a certos efeitos
característicos de Pirandello. Estou pensando, por exemplo, na cena de esta Noite se Improvisa, na qual um
velho ensaia sua cena de morte; aqui Pirandello é capaz de nos tocar com um
sentido real da morte iminente de um modo que lhe seria inteiramente impossível
se nos mostrasse um homem realmente morrendo. Nossa tendência é para pensar em
sangue derramado no palco como coisa falsa; mas a mágica do metateatro pode
fazer que o sangue do palco pareça verdadeiro; ou pelo menos podemos, por um
momento, pensar nele como sendo real, sem sentir que estamos sendo enganados.
(p. 111).
BECKETT E O METATEATRO.
Todas as peças de Beckett sugerem
que alguma ação definitiva teve lugar antes dos
personagens chegarem ante os nossos olhos. Tomemos as duas obras principais de
Beckett, Esperando Godot e Fim de Partida. Os personagens dessas
peças, Estragon e Vladimir, Pozzo e Lucky, tanto pelo que fazem, mas pelo que
já lhes aconteceu. Eles nos mostram o resultado de uma ação dramática, porém
não essa ação dramática em si. O drama deles consiste em terem sido capazes de
drama em certo momento. No palco, lembram-se que certa vez tiveram um palco
para seus pensamentos, sentimentos, bem como corpos em melhor estado. (p. 115).
Porém essas peças não podem ser
compreendidas ou plenamente apreciadas a não ser que reconheçamos que, apesar
de seu conteúdo especial, sua estranheza e seu lirismo puramente pessoal, são
conformes com a espécie de obra dramática que designei como metateatro: o que
as torna tão especiais é o fato da vida, nessas peças, ter sido teatralizada
não por quaisquer atitudes tomadas pelos personagens, ou por quaisquer truques
de dramaturgia, nem também pela intenção do autor de demonstrar qualquer
posição sobre o mundo, mas apenas pela mera passagem do tempo, o fato drástico
da vida quotidiana. (p. 117).
BRECHT. SEU NÃO E SEU SIM.
Baal é uma peça áspera, exuberante, e por vezes requintada; nela
Brecht anuncia de uma vez por todas o objeto de seu ódio, desprezo e descrença
permanentes: o indivíduo, quer dizer, a experiência moral. Herbert Luethy diz
de Baal: “Aqui temos tudo o que
jamais se poderia sonhar em matéria de deboche da religião, da humanidade, da
simples moralidade.” É verdade, mas não é muito preciso. (p. 122).
Se em verdade o conceito europeu
do indivíduo estava a enterrar-se na sepultura que ele mesmo cavou, se essa era
a verdade a respeito daquele tempo – segundo o julgamento de Brecht tanto
quanto o de Hofmannsthal – então sem dúvida a experiência moral não tinha
significação, o sofrimento moral era absurdo, a moralidade era, na frase de
Rimbaud, “uma fraqueza do cérebro”. Creio que Brecht nunca se desviou desse
ponto de vista. É por isso que ele foi, desde o início, inteiramente oposto à
tragédia – forma impossível para quem não toma a sério os sofrimentos morais –
e oposto também ao realismo, a forma teatral herdada de Ibsen na qual o
indivíduo desempenha papel tão grande. (p. 123).
E tem pouco o que mostrar como
resultado de seus esforços além do assassínio de um jovem agitador que,
totalmente devotado ao trabalho revolucionário, foi julgado por eles como sendo
incompetente para tal. Evidentemente, ele os atrapalhou em sua obra
revolucionária porque dava excessivo valor a seus sentimentos morais. Eles liquidaram
o rapaz não por causa de qualquer iniciativa anti-revolucionária de sua parte,
mas pura e simplesmente porque ele era um indivíduo, e por isso mesmo um
tropeço para o Partido. Pois, como lhes havia dito o Líder na sede do Partido –
e é aí que está a moral da estória – os agitadores não devem ter nome nem mãe,
devem ser páginas em branco nas quais a revolução escreve suas instruções. (p.
124 e 125).
A peça de Corneille era uma
comemoração do heroísmo e da vontade individuais. A de Brecht é a comemoração
da destreza animal, da coragem animal, da esperteza animal. O Horácio de
Corneille, que triunfa sobre os três Curiácios contra os quais ele não tem a
menor animosidade pessoal, e que é culpado, também, do assassínio de sua irmã,
é uma imagem apavorante e grotesca da grandeza individual. O Horácio de Brecht,
ferido e capengando, coberto com o seu próprio sangue tanto quanto com o de
seus inimigos que já matou, é a imagem do animal humano acuado, que sai de uma
situação da qual teve a sorte de escapar vivo. O herói da peça de Corneille é a
alma individual. O herói da peça de Brecht é o corpo humano. (p. 128 e 129).
Enquanto Ronal Gray nota: Em seu
nível mais simples, Mãe Coragem é uma
peça contra a guerra, que denuncia a estupidez de seus personagens centrais que
vivem da guerra e mesmo assim são cegos às penas que ela impõe. Isso era tão
importante para Brecht que quando sentiu, nos primeiros espetáculos em Zurique,
que o público “burguês” sentia simpatia pela Mãe Coragem, admirando sua
tenacidade em face da adversidade, ele reescreveu ou modificou várias
passagens, dando-lhe motivos mais baixos para suas ações e enfatizando... sua
desumanidade. (p. 131).
BRECHT E O METATEATRO.
Defini o metateatro como
repousando sobre dois postulados básicos: 1) o mundo é um palco, e 2) a vida é
um sonho. Não pretendo asseverar que Brecht considerasse nenhum desses dois
postulados como verdades a serem demonstradas em suas obras. O que desejo
afirmar é que Brecht, ao rejeitar a significação do indivíduo e da experiência
moral, teve de apoiar-se nesses conceitos para dar forma a suas peças. (p.
141).
Note-se que jamais qualquer autor
de tragédia fez ou poderia sequer conceber fazer o que Brecht se propunha. Pois
o efeito da tragédia é induzir no espectador um sentido quase que avassalador
de realidade. Não se pode, num momento trágico, chamar o espectador de volta à
realidade, pois tal momento, se em verdade realizado pelo dramaturgo, constitui
uma concentração de realidade que vai além de qualquer coisa que jamais
possamos encontrar na vida, e certamente muito além de qualquer noção das
coisas que possamos sentir quando estimulados a exercitar nossos poderes “críticos”.
Por certo a idéia de Brecht de chamar o espectador para fora de seu
envolvimento seria contraditória se ele estivesse querendo escrever tragédia ou
realismo; mas não é contraditória, já que o que ele realmente escreveu foi
metateatro. (p. 142).
TRAGÉDIA OU METATEATRO.
Resumindo os valores e desvalores
da tragédia e do metateatro: a tragédia transmite de longe o sentido mais forte
da realidade do mundo. O metateatro transmite de longe o sentido mais forte de
que o mundo é uma projeção da consciência humana. A tragédia florifica a
estrutura do mundo, que supostamente reflete em sua própria forma. O metateatro
glorifica a falta de vontade da imaginação para considerar qualquer imagem do
mundo como final. A tragédia torna a existência humana mais vívida por deixar
transparecer sua vulnerabilidade face o destino. O metateatro torna a
existência humana mais semelhante ao sonho por nos mostrar que o destino pode
ser superado. A tragédia pretende ser mediadora entre o mundo e o homem. A
tragédia deseja estar dos dois lados. O metateatro pressupõe que não existe
mundo senão aquele pela luta humana, pela imaginação humana. A tragédia não
pode operar sem o pressuposto de uma ordem que seja um valor último. Para o metateatro,
a ordem é alguma coisa que está sempre a ser improvisada pelos homens. (p. 149
e 150).
MATÉRIA RELEVANTE.
NEM TODO MUNDO ESTÁ NUM APERTO.
Uma peça é essencialmente um
jogo, porém um jogo jogado com algo sagrado. É muito raro que uma peça seja má
simplesmente porque o autor não conhece as regras do jogo – a dramaturgia não é
uma arte tão difícil quanto se julga geralmente, e a maior parte dos dramaturgos,
mesmo os piores, é de modo geral capaz de dominar ao menos as regras
elementares, e ocasionalmente até mesmo alguns de seus refinamentos. O que
torna má a maior parte das peças é o fato de o dramaturgo não considerar
sagrado o valor ou a experiência particular que ele pretende considerar como
tal para efeito da estrutura de sua obra. Pois na verdade a questão de uma
coisa ser ou não sagrada é intimamente ligada à própria forma de qualquer peça.
Sempre reparo, nas peças más, naquele momento em que o dramaturgo começa a
fingir que tem entusiasmo por algum valor que toda a sua obra nega. (p. 167).