O QUE É O TEATRO ÉPICO? UM ESTUDO SOBRE
BRECHT. (Walter Benjamim. ‘Magia e Técnica, Arte e Política’).
O que está
acontecendo, hoje, com o teatro? Essa pergunta pode ser respondida se tomarmos
como ponto de referência o palco, e não o drama. O que está acontecendo é,
simplesmente, o desaparecimento da orquestra. O abismo que separa os atores do
público (...) perdeu sua função. O palco ainda ocupa na sala uma posição
elevada, mas não é mais uma elevação a partir de profundidades insondáveis: ele
transformou-se em tribuna. Temos que ajustar-nos a essa tribuna. Esta é a
situação. (p. 78).
As relações
funcionais entre palco e público, texto e representação, diretor e atores quase
não se modificaram. O teatro épico parte da tentativa de alterar
fundamentalmente essas relações. (p. 79).
O teatro épico
é gestual. Em que sentido ele também é literário, na acepção tradicional do
termo, é uma questão aberta. O gesto é seu material, e a aplicação adequada
desse material é sua tarefa (...) o gesto tem duas vantagens. Em primeiro
lugar, ele é relativamente pouco falsificável, e o é tanto menos quanto mais
inconspícuo e habitual for o gesto. Em segundo lugar, em contraste com as ações
e iniciativas dos indivíduos, o gesto tem um começo determinável e um fim
determinável. Esse caráter fechado, circunscrevendo numa moldura rigorosa cada
um dos elementos de uma atitude que não obstante, como um todo, está inscrita
num fluxo vivo, constitui um dos fenômenos dialéticos mais fundamentais do
gesto. (p. 80).
Mas também
aqui certas liberdades seriam inevitáveis, a fim de colocar a ênfase não nas
grandes decisões, correspondentes à expectativa do público, mas em aspectos
individuais e incomensuráveis. “Pode acontecer assim, mas também pode acontecer
outra coisa, completamente diferente” – essa seria a atitude básica de quem
escreve para o teatro épico. (p. 84).
No momento em
que a massa se diferencia através de debates, de decisões responsáveis, de
tomadas de posição bem fundamentadas, no momento em que a falsa e mistificadora
totalidade “público” começa a fragmentar-se, abrindo espaço para as clivagens
partidárias que correspondem às condições reais – nesse momento, a crítica sofre
o duplo infortúnio de ver desvendada a sua função de agente e de ter essa
função abolida. Ao apelar para um “público” que sob essa forma equívoca só
existe ainda no teatro, mas não, sintomaticamente, no cinema, a crítica se
converte, voluntária ou involuntariamente, em representante do que os antigos
chamavam de “teatrocracia”: tirania das massas, baseada em reflexos e
sensações, que constitui o contraste mais completo com as decisões das
coletividades responsáveis. (p. 86 e 87).
AS CENAS DE RUA – ESQUEMA DE UMA CENA DE
TEATRO ÉPICO.
(...) a
testemunha ocular de um acidente de trânsito demonstra a uma porção de gente
como se passou o desastre. O auditório pode não haver presenciado a ocorrência,
ou pode, simplesmente, não ter um ponto de vista idêntico ao do narrador, ou
seja, pode ver a questão de outro ângulo; o fundamental é que o relator
reproduza a atitude do motorista ou a do atropelado, ou a de ambos, de tal
forma que os circunstantes tenham possibilidade de formar um juízo crítico
sobre o acidente. (p. 67).
Suponhamos que
não era capaz de executar uma movimentação tão rápida como a do acidentado que
está imitando; bastará, nesse caso, que diga, como exemplificação: - Os
movimentos dele eram três vezes mais rápidos do que os meus. – (...) Terá, pois,
de comportar-se de forma a evitar que alguém possa exclamar: “Com que
veracidade ele faz o papel de um chofer!” Não tem de “arrastar” ninguém
consigo. Não deve transportar ninguém, servindo-se do seu poder de sedução, da
esfera do quotidiano para outra “Mais elevada”. (p. 68).
Outro elemento
essencial da cena de rua, também
necessário na cena teatral – se
pretendermos apresentar teatro épico -, é a circunstância de a descrição ter
uma projeção no domínio prático, no domínio social. Quer o indivíduo que descreve
o que ocorreu na rua queira, apenas, mostrar que este ou aquele comportamento
de um transeunte ou do motorista determina inevitavelmente um acidente (que um
comportamento diverso poderia prevenir), quer o seu intuito seja esclarecer a
quem cabe a culpa, a descrição obedece a uma finalidade prática, há um
compromisso social. É o objetivo da descrição que determina o grau de exatitude
a conferir a imitação. (p. 69).
Como vem, a
tarefa a que nos lançamos, de descrever um acontecimento passado na esquina de
uma rua, permite-nos a elaborar uma reprodução bastante rica e polifacetada do
homem. não devemos, porém, esquecer que um teatro como o que advogamos, que nos
seus elementos essenciais não pretende ultrapassar a representação feita na via
pública, tem de reconhecer determinados limites à sua imitação. É em função do
objetivo a que se propõe que deverá justificar o seu dispêndio de elementos.
(p. 69).
Um outro
aspecto essencial da cena de rua consiste em o narrador deduzir os caracteres
que apresenta inteiramente a partir das ações. Imita as ações, permitindo,
assim, que a respeito delas se tire uma conclusão. Um teatro que também nesse
ponto siga o exemplo da cena de rua afastar-se-á de um hábito característico do
teatro usual e que consiste em fundamentar as ações nos caracteres e
subtraí-las a uma crítica, apresentando-as como provindo irremediavelmente, por
determinismo natural, dos caracteres a que estão dando efetivação. (p. 72).
Em suma, o
ator não deve jamais abandonar a atitude de narrador; tem de nos apresentar a
pessoa que estiver descrevendo como alguém que lhe é estranho; no seu
desempenho não deverá nunca faltar a sugestão de uma terceira pessoa: “Ele fez
isto, ele disse isto”. Não deve transformar-se completamente na personagem
descrita. (p. 73).
Chegamos
assim, a um dos elementos mais característicos do teatro épico, o chamado efeito de distanciamento. Tal efeito
depende de uma técnica especial, pela qual se confere aos acontecimentos
representados (acontecimentos que se desenrolam entre os homens nas suas
relações recíprocas) um cunho de sensacionalismo; os acontecimentos passam a
exigir uma explicação, deixam de ser evidentes, naturais. O objetivo do efeito
de distanciamento é possibilitar ao espectador uma crítica fecunda, dentro de
uma perspectiva social. (p. 74).
Como se poderá
comprovar – espero que tal não suceda sem assombro -, não apontei, dentre os
vários elementos, aqueles que enquadram a cena da via pública e,
simultaneamente, o teatro épico, num plano propriamente artístico. O nosso amigo que faz a descrição em plena rua é capaz
de fazê-la, com êxito, servindo-se apenas de capacidades que “praticamente
todos os homens possuem”. Mas quanto ao valor
artístico do teatro épico, que haverá a dizer? (p. 75).
(...) Não
existe qualquer diferença de base entre o teatro épico e o teatro épico
artístico. O teatro que se desenrola numa esquina de rua é primitivo: os seus
motivos, objetivos e meios de realização não lhe conferem qualquer valor
especial. Contudo, é, incontestavelmente, um acontecimento significativo, com
uma nítida função social, à qual estão subordinados todos os seus elementos. Na
representação da rua há um determinado incidente que serve de pretexto e que
pode ser analisado de diversas formas e reproduzido desta ou daquela maneira
(...) O objetivo da representação é possibilitar uma apreciação crítica da
ocorrência. Os meios de que se serve correspondem a este objetivo. O teatro
épico é um teatro altamente artístico, denota um conteúdo complexo e, além
disso, profunda preocupação social. Instituindo a cena de rua exemplo-padrão do
teatro épico, atribuímos a este uma nítida posição social. (p. 78).
A NOVA TÉCNICA DA ARTE DE REPRESENTAR:
BREVE DESCRIÇÃO DE UMA NOVA TÉCNICA DA ARTE DE REPRESENTAR, CONSEGUIDA MEDIANTE
UM EFEITO DE DISTANCIAMENTO.
Os meios
empregados para tal eram de natureza artística (...) Não se pretendia
“inflamar” o público dando-se rédea solta ao temperamento, nem “arrebatá-lo”
com uma representação feita de músculos contraídos. Não se aspirava, em suma,
pôr o público em transe e dar-lhe a ilusão de estar assistindo a um
acontecimento natural, não ensaiado. Como se verá, a seguir, a propensão do
público para se entregar a uma tal ilusão deve ser neutralizada por meios
artísticos. (p. 79).
Numa
representação em que não se pretenda uma metamorfose integral, podem
utilizar-se três espécies de recursos para distanciar a expressão e a ação da
personagem apresentada: 1) recorrência à terceira pessoa, 2) recorrência ao
passado e 3) intromissão de indicações sobre a encenação e de comentários. (p.
82).
“chegamos
assim a um método decisivo, a historização
dos acontecimentos. O ator deve representar os acontecimentos dando-lhes o
caráter de acontecimentos históricos. O comportamento das personagens dentro
destes acontecimentos não é, pura e simplesmente, um comportamento humano e
imutável, reveste-se de determinadas particularidades, apresenta, no decurso da
história, formas ultrapassadas e ultrapassáveis e está sempre sujeito à crítica
da época subseqüente, crítica feita segundo as perspectivas desta. Esta
evolução permanente distancia-nos do comportamento dos nossos predecessores”. (p. 84).
O DIDÁTICO DO LÚDICO.
Brecht
entendia o universo enquanto linguagem: uma articulação sígnica crivada de
lutas, choques e entrechoques, contradições. Desta forma, astuto observador da
realidade sócio-econômico e cultural, Brecht apreende o mundo enquanto jogo de
contradições e prepara-se para reproduzi-lo sob a forma teatral. Experimenta,
coloca a sua criatividade sob cunha crítica: “o mundo de hoje só pode ser
reproduzido se for compreendido como suscetível de transformações”. (p. 1).
Distanciamento,
afastamento, estranhamento, são etapas que designam um procedimento cujo
objetivo é estanhar no sentido de chamar o receptor à consciência. Brecht não
prioriza o caráter didático, pelo contrário, nota-se uma busca de não se
produzir relações hierarquizantes e de buscar, tanto quanto possível, uma
relação coordenada entre o lúdico e o didático, construção reveladora de uma
lógica (analógica). Lúdico-didático. (p. 2).
A LINGUAGEM GESTUAL NO TEATRO DE BRECHT,
WILLI BOLLE.
No ensaio
“Sobre poesia sem rimas com ritmos irregulares” (1939), Bertold Brecht explica
a elaboração de uma nova técnica de linguagem, tanto do verso, quanto da prosa,
que ele chama gestual. Isto significa que a expressão verbal deve impregnar-se
inteiramente do gestus da pessoa que
fala. (p. 393).
Com o gesto
não deve ser confundido o Gestus.
Brecht adverte: “Falando de Gestus,
não se pretende falar da gesticulação: não se trata de movimentos das mãos no
intuito de frisar ou explicar a fala, mas sim de atitudes gerais. Uma linguagem é gestual quando se fundamenta no gestus, quando revela determinadas
atitudes do indivíduo que fala, assumidas perante outros indivíduos”. O gestus, portanto, é signo de interação
social. Assim, por exemplo, um homem que vende um peixe manifesta o gestus de vender; um homem redigindo seu
testamento, uma mulher atraindo um homem, um policial batendo num homem – em
tudo isso está um gestus social. (P.
394).
Uma das
características da estética dominante é a da representação – uma exibição de representação política, ligada
tradicionalmente a atributos como insígnias, hábitos, retórica, gestus. (P. 397).
Porém, através das encenações e dos artifícios transparece o
gestus social dos nazistas, por Brecht assim caracterizado: "A pompa dos
fascistas, considerada simplesmente como pompa, tem
um gestus vazio, o gestus da pompa em si, um fenômeno sem qualidade; ao invés
de pessoas andando, há pessoas marchando, alguma rigidez, muito colorido,
peitos cheios de autoconfiança ostensiva, etc; tudo isso poderia ser ainda o
gestus de um divertimento para o povo, algo inócuo, algo puramente factual.
Mas, no momento em que eles pisam em cima de cadáveres, surge o gestus social
do facismo". (p. 398 e 399).
A função
do teatro, segundo Brecht, consiste em entregar ao público a realidade como
algo manipulável. Isto significa: desenvolver no espectador a consciência de
linguagem, a consciência do gestus
social. O teatro épico é interessado principalmente em experimentos com os
comportamentos que permitem tirar conclusões sobre as condições sociais e que
são significativos do ponto de vista da história social. (p. 399).
Quando Brecht
fala em “linguagem gestual”, pensa em primeiro lugar na unidade entre gesto e
palavra. A interrelação entre os dois tipos de signos pode-se fazer num duplo
sentido: 1) Do gestus à palavra (...)
a alternativa proposta por Brecht é evitar qualquer “paixão” antes ou depois da
fala: “Caminha-se de verso para verso, e cada um deles é desenvolvido a partir
do gestus da personagem” (...) 2) Das
palavras ao gestus. Em cada
constelação social, postula Brecht, o indivíduo deve ser julgado segundo o que
ele mostra de si e segundo o que faz – o que conta são os signos externos. A
arte do ator baseia-se mais na comunicação gestual do que na expressão verbal:
“também as palavras devem ser reduzidas a um gestus”. (p. 402).
(...) A
diferença reside no fato de o líder fascista ter visado a empatia, ao passo
que, no teatro épico, o gestus sempre
implica na dimensão dialética da contradição e do estranhamento. O ator deve
marcar, antes de mais nada, os traços contraditórios da personagem: o herói,
por exemplo, pode ser mostrado como sendo cruel contra o seu criado. (p. 403).
A
elaboração da linguagem gestual exige precisão, economia, objetividade: “O
público precisa ter certeza de que um andar, um levantar-se, um gesto são
significativos e que merecem atenção”. Se houver necessidade de mudar a
posição, ela deve coincidir com a expressão de um momento significativo para a
ação. Os momentos de mudança radical de posição são chamados pontos nodais da
intriga. (p. 404).
(...) Para
evitar o comportamento esquemático, o ator épico se apresenta “de mãos vazias”,
como alguém disposto a reinventar a linguagem: “Para encontrar os gestos
subjacentes às frases, experimenta outras frases, mais vulgares, que não contém
o significado em questão, mas apenas o gesto”. (P. 405).
Quando
representa, ele olha também para os seus braços e suas pernas, como que
controlando o trabalho deles. Assim, o artista separa a mímica (representação do
olhar observador) da linguagem gestual (representação do objeto), mas a última
nada perde, pois a atitude do corpo age retroativamente sobre o rosto,
transmitindo-lhe inteiramente sua expressão: “O artista usou seu rosto como uma
folha vazia a ser escrita pelo gestus do
corpo”. (P. 407).
(...) No
teatro tradicional, o ator se interdiz de olhar diretamente para os
espectadores, ele faz de conta que não estão presentes, imaginando uma quarta
parede; no teatro épico, dirige-se a eles diretamente. Quando representa, olha
de vez em quando para o espectador como querendo dizer: “Veja bem, como age
aquele que agora vou apresentar a você – esta é a atitude básica”. (p. 408).
TEATRO-EDUCAÇÃO, UMA REVOLUÇÃO
COPERNICIANA.
Partindo do
modelo epistemológico de Piaget, encontramos no comportamento simbólico da
criança as primeiras manifestações do processo que caracteriza a arte a que
chamamos teatro. Denominamos geralmente de “jogos dramáticos” a essas
brincadeiras que todas as crianças realizam. O drama, no sentido grego da
palavra, representa ação. O drama é derivado da capacidade humana de agir no
“como se”. Expressar lembranças ocasiona nossos conhecimentos individuais.
Nesse sentido, o drama é a manifestação mais remota da capacidade humana de
elaborar símbolos, ou seja, de criar formas estéticas. (p. 1).
Ao guiar a
inclinação natural da criança em direção ao jogo e à imitação, o professor de
teatro-educação pode ajudar em seu desenvolvimento intelectual. Isto é sugerido
pela aparente similaridade entre os processos de teatro-educação e os processos
do desenvolvimento intelectual propostas por Piaget. No teatro-educação, o
professor estrutura uma situação problema que propõe à criança um estado de
desequilíbrio. A criança resolve ativamente o problema colocado, assimilando
dessa forma o problema e acomodando seus esquemas ao problema acomodado. (p.
4).
Na acepção,
geralmente aceita, de que o teatro didático de Brecht é constituído de peças de
teatro áridas e esquemáticas está subjacente o equívoco de que seu potencial lúdico
é mínimo. Esta é uma das explicações possíveis para o papel secundário a que
ficou relegada esta dramaturgia. O presente trabalho persegue o objetivo de uma
utilização pedagógica do conceito de peça didática de Brecht, buscando um
método de ensino para sua abordagem através do jogo. (p. 7).
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