Qual o seu nome e a sua profissão?
Luiz Marfuz, diretor teatral,
dramaturgo, jornalista e professor da Escola de Teatro da UFBA. Mestre em
Comunicação e Cultura e Doutor em Artes Cênicas pela UFBA.
Qual a tua área de conhecimento?
Teatro, Comunicação. Arte na
Educação.
Você pode me falar um pouco sobre o que você conhece do teatro
brechtiano, fazendo uma menção especial aos seus efeitos de distanciamento e ao
termo gestus social?
Brecht
tem forte influência no traçado estético-ideológico do teatro brasileiro,
especialmente a partir da década de 60, com os grupos históricos como o
Oficina, o Opinião e o Teatro de Arena, além do teatro universitário, e exerce,
até hoje, um papel de relevância tanto na formação de atores quando na condução
das encenações contemporâneas. Na Bahia, o teatro de Brecht dá referência para
o teatro estudantil e para as companhias teatrais fundadoras do Teatro Vila
Velha.
Comecei
a fazer teatro como ator numa peça didática de Brecht (Aquele que diz sim, Aquele que diz não), ainda no teatro
universitário da década de 70, muito vinculado ao movimento e a militância
estudantis. Daí pra frente ele se tornou uma referência essencial em tudo o que
faço, mais do que Beckett, que foi objeto de minha tese de doutorado.
O
encontro com o teatro de Brecht me permitiu entrar em contato com o método
dialético, indispensável para dialogar com termos como distanciamento e gestus social. O primeiro remete à
questão histórica. Para Brecht, distanciar é historicizar. Tomar distância de
um acontecimento, colocando-o na sua arcada histórica e quebrando a ilusão que
o teatro mimético promove entre ator e espectador. Consiste, enfim, em provocar
no ator e no espectador uma atitude crítica e de investigação diante da ação
representada, examinando-a numa perspectiva histórica. Assim, retira-se do
acontecimento aquilo que parece natural, oferecendo-se, em troca, o espanto e
curiosidade, como bem observa Gerd Bornheim, grande referência nos estudos da obra
de Brecht.
O
gestus social é objeto de muita
controvérsia; mas para mim o gestus social só poderia ser entendido na
perspectiva de uma classe em relação a outra; ou seja, o gesto de uma
personagem de uma determinada posição social em relação a outra personagem de certo
estamento social. Apontar o dedo, por exemplo, se tornaria um gestus social na medida em que a
situação mostrasse quem e para quem se está apontando em determinada situação ou
circunstância histórica, a partir das relações de classe.
Você pode me falar um pouco sobre o que você conhece a respeito das
peças didáticas brechtianas?
As peças didáticas foram pensadas
por Brecht como um modo de permitir aos próprios atores que as faziam uma compreensão
sócio-política do mundo por meio do método dialético; ou seja, não importava
tanto o resultado, mas o processo com os atores, ou alunos-atores. Mas as peças
ganharam força como espetáculo e foram muito difundidas e montadas no Brasil a
partir da década de 60, em plena efervescência político-institucional, na esteira
da trajetória de grupos como Oficina,
Opinião, Teatro de Arena, CPC; e
depois nas Universidades, por conta do forte conteúdo político dos textos, que
eram geralmente apropriados para a situação histórica que o Brasil vivenciava,
especialmente durante o regime militar. Mas
até hoje elas têm papel de relevância na formação de atores e na condução de
encenações no teatro profissional e em montagens nas escolas.
Você pode me falar um pouco sobre alguma experiência teórico/prática
que você já realizou com discentes de escola pública ou ensino informal com
essas peças didáticas?
Fiz duas montagens. Uma a partir
de uma cena de “A exceção e a regra” – talvez a mais conhecida e eficaz peça
didática de Brecht – que gerou o espetáculo Meu
nome é mentira. Foi a montagem de formatura da turma de Interpretação de
2010, ainda no tempo do Módulo Curricular. E outra com os alunos do curso de
Licenciatura da Escola de Teatro, que foi o resultado da aprendizagem de um
semestre inteiro, uma vez que todas as disciplinas, naquele modelo de
currículo, convergiam num único semestre para uma determinada estética,
poética, movimento artístico ou encenador.
A mostra se chamava Quanto custa um homem? e reunia trechos
de várias peças didáticas de Brecht com os chamados songs, as canções que interrompiam o fluxo do texto, criando-se
camadas de distanciamento. Eu diria que, em ambas, o processo de formação do
ator se foi estabelecendo como um modo de conhecimento do mundo brechtiano e da
dialética, sendo que em Quanto custa um homem?
o foco central era exatamente esse aprendizado; enquanto que em Meu nome é Mentira, por se tratar de um
espetáculo de formatura em Interpretação, tínhamos um olhar maior na encenação,
com música ao vivo, e fizemos uma longa temporada. Este espetáculo ficou em
cartaz durante sete meses, em vários teatros da cidade, e teve 4 indicações ao
Prêmio Braskem de Teatro (Texto, Atriz, Espetáculo, Direção e Direção Musical).
Qual a importância de se praticar as peças didáticas brechtianas com o
ensino médio de escolas públicas nos dias atuais?
Incomensurável.
Os tempos mudam, mas Brecht continua atual, vibrante, provocante. É uma forma
de os alunos de Escolas públicas entrarem em contato com um modo de teatro bem
diferente do que ele vê no dia a dia, nos filmes, novelas etc. Mais do que isso
é um modo de promover uma grande reflexão sobre a função do teatro, o lugar dos
alunos na sociedade, o contexto da Escola na educação pública, abrindo-se,
assim, novas portas de percepção social.