Foram quatro
dias de oficina com jogos, técnicas e apresentações de contação de histórias.
Nos dois primeiros dias, foram realizados jogos dramáticos e teatrais a fim de
irmos despertando nossos corpos, memórias, relações interindividuais no grupo e
a (o) contadora (o) que habita em cada uma/um de nós. Foi bastante interessante
perceber como o professor conduziu toda a oficina a partir deste simples
pressuposto de que todo mundo conta histórias. Ouvir as histórias sendo
contadas contribuía para esse propósito do auto despertar para a contação. No
grupo, haviam pessoas que já contam há algum tempo e a troca de saberes também
estimulou a escuta, tão importante neste processo. Do início até o último dia,
a turma foi diminuindo. Ficaram apenas quatro pessoas que já contavam histórias
enquanto ofício, profissão, paixão. Acredito que a evasão tenha se dado pela
ansiedade em vivenciar um estereótipo teatral que visa o espetáculo enquanto
produto. A própria intimidade requerida pela contação que necessita do “olho no
olho” para que as histórias ganhem a empatia do público parece-me ter contribuído
para que pessoas mais tímidas desistissem. Como essa vertente utiliza-se de
menos recursos que um espetáculo, a atenção é concentrada no corpo de quem
conta: olhos, gestual, oralidade e imagens.
(...)
Levando isto em consideração, a partir de todo o percurso percorrido, concebo
como contação de histórias a narração enunciada pela voz naquilo que
singulariza o texto oral: localmente planejada, a presença de hesitação,
pausas, silêncio. Todas as informantes desta pesquisa, sem exceção, quando
perguntadas diretamente, através de entrevistas, sobre o que distingue o
contar, apontam que se conta sempre que se empresta a própria voz e o próprio
texto à narração, adaptando-a à fala, ainda que, em alguns casos, venham a
acreditar na necessidade de elementos como complemento: o livro, dedoches,
marionetes, etc. O que entra em jogo, nestes casos, entretanto, é uma
necessidade de tornar a performance mais “atrativa”. (CRISTINE. 2013. p. 165).
Elementos a que
naturalmente recorremos ao contar histórias no/do cotidiano, mas que aqui eram
chamados à consciência a fim de nos relacionarmos intencionalmente com eles. Aqui,
abro um parêntese para relacionar as histórias no/do cotidiano com a ‘cena de
rua’. Há, nesta última, o teatro épico assim como no contar do/no cotidiano, há
a experiência teatral do contar histórias. O que talvez diferencie o cotidiano
do experimento teatral seja a intenção.
No fim do
segundo dia, compartilhávamos histórias que havíamos escutado na infância
enquanto fazíamos teatro. A partir do terceiro dia, começou um processo mais
direcionado para a aplicação de técnicas na nossa contação. Primeiro escrevemos
a história num papel. Em seguida, dividimo-la em blocos a fim de separar a
história em ritmos, volumes e sentimentos distintos, dando mais colorido ao
contar. Por fim, compartilhamos nossas histórias sem a leitura do papel e
recebíamos as observações do professor. Foi bastante interessante observar como
Sandra havia trazido uma história que ela já estava habituada a contar para
seus filhos. Da primeira vez em que apresentou, era possível perceber de modo
muito claro a música condicionada pelas rimas da história e pelo longo tempo em
que aquela história já foi contada por ela a seus filhos. Após as indicações do
professor, Sandra apresentou-se novamente e sua contação já não carregavam os
mesmos vícios de antes. No último dia, resolvemos nos reunir no pátio da FACED
a fim de abrir para que qualquer transeunte se sentisse convidada (o) a
participar. Estendemos cangas no chão e montamos um piquenique com cafés, bolos,
biscoitos e sequilhos. Durante a oficina, Alexandre ressaltou que os momentos
mais específicos em que contamos histórias estão relacionados com a comida. E,
por isso, o piquenique. Entre conversas e comida, revezámos na contação.
(...)
Há que se acrescentar outro elemento, que é a formação política. No momento em
que se conta ou lê, incluindo a escolha do que se conta ou lê, especialmente
quando se mescla estas duas possibilidades, é importante haver uma certa
ciência com relação aos elementos ideológicos em jogo, para além das questões
estéticas, o que pode implicar em balancear ambas as práticas em sala de aula,
em atribuir à cultura popular o que é da cultura popular e, ao mesmo tempo,
trabalhar elementos simbólicos que integrem o imaginário dos diversos grupos
que inundam o contexto escolar e fazem com que este se repense em diferentes
dimensões. (CRISTINE. 2013. p. 168).
A história que
eu havia pesquisado durante a oficina fora substituída por outra a partir de
uma reflexão sócio política sobre os acontecimentos últimos em que nosso país
está vivendo. Como a linguagem (principalmente, a jornalística) tem sido
manipulada a fim de manter no poder a classe dominante, levei um conto africano
sobre o uso da língua. Como não tive tempo para decorar, precisei usar o texto
escrito para apresentar minha contação. Durante minhas leituras bibliográficas
sobre conceitos neste âmbito da contação, ficou claro que há uma diferença
importante entre o contar e ler histórias.
O
contato com o texto escrito, seja ele em que formato for, pelo livro lido ou
oralizado, trata-se de uma relação com a leitura (...) O que não significa que
leitura e contação de histórias não possam se emprestar elementos, mas isto é
algo que precisa ganhar maior clareza, sobretudo no processo de formação de
professores e de produção acadêmica a respeito. (CRISTINE. 2013. p. 165).
Claro que
ambas podem se alimentar dos elementos uma da outra, mas sem perder o foco na
particularidade. Então, utilizei do recurso textual apenas enquanto um elemento
do ‘ler histórias’ e busquei ressaltar a oralidade (ritmo, volume, sentimentos)
e o ‘olho no olho’. Para concluir, resolvemos não parar por aqui e estamos
conversando para darmos continuidade a essa pesquisa com o mesmo grupo que se
formou nesses quatro dias além de mais pessoas que participaram apenas do piquenique,
mas que também contam histórias.
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