quarta-feira, 9 de maio de 2018

RELATÓRIO REFERENTE A OFICINA “JOGOS PARA DESPERTAR A (O) CONTADORA (O) DE HISTÓRIAS QUE CADA UMA/UM TRAZ DENTRO DE SI” COM ALEXANDRE GEISLER.




Foram quatro dias de oficina com jogos, técnicas e apresentações de contação de histórias. Nos dois primeiros dias, foram realizados jogos dramáticos e teatrais a fim de irmos despertando nossos corpos, memórias, relações interindividuais no grupo e a (o) contadora (o) que habita em cada uma/um de nós. Foi bastante interessante perceber como o professor conduziu toda a oficina a partir deste simples pressuposto de que todo mundo conta histórias. Ouvir as histórias sendo contadas contribuía para esse propósito do auto despertar para a contação. No grupo, haviam pessoas que já contam há algum tempo e a troca de saberes também estimulou a escuta, tão importante neste processo. Do início até o último dia, a turma foi diminuindo. Ficaram apenas quatro pessoas que já contavam histórias enquanto ofício, profissão, paixão. Acredito que a evasão tenha se dado pela ansiedade em vivenciar um estereótipo teatral que visa o espetáculo enquanto produto. A própria intimidade requerida pela contação que necessita do “olho no olho” para que as histórias ganhem a empatia do público parece-me ter contribuído para que pessoas mais tímidas desistissem. Como essa vertente utiliza-se de menos recursos que um espetáculo, a atenção é concentrada no corpo de quem conta: olhos, gestual, oralidade e imagens.
(...) Levando isto em consideração, a partir de todo o percurso percorrido, concebo como contação de histórias a narração enunciada pela voz naquilo que singulariza o texto oral: localmente planejada, a presença de hesitação, pausas, silêncio. Todas as informantes desta pesquisa, sem exceção, quando perguntadas diretamente, através de entrevistas, sobre o que distingue o contar, apontam que se conta sempre que se empresta a própria voz e o próprio texto à narração, adaptando-a à fala, ainda que, em alguns casos, venham a acreditar na necessidade de elementos como complemento: o livro, dedoches, marionetes, etc. O que entra em jogo, nestes casos, entretanto, é uma necessidade de tornar a performance mais “atrativa”. (CRISTINE. 2013. p. 165).
Elementos a que naturalmente recorremos ao contar histórias no/do cotidiano, mas que aqui eram chamados à consciência a fim de nos relacionarmos intencionalmente com eles. Aqui, abro um parêntese para relacionar as histórias no/do cotidiano com a ‘cena de rua’. Há, nesta última, o teatro épico assim como no contar do/no cotidiano, há a experiência teatral do contar histórias. O que talvez diferencie o cotidiano do experimento teatral seja a intenção.
No fim do segundo dia, compartilhávamos histórias que havíamos escutado na infância enquanto fazíamos teatro. A partir do terceiro dia, começou um processo mais direcionado para a aplicação de técnicas na nossa contação. Primeiro escrevemos a história num papel. Em seguida, dividimo-la em blocos a fim de separar a história em ritmos, volumes e sentimentos distintos, dando mais colorido ao contar. Por fim, compartilhamos nossas histórias sem a leitura do papel e recebíamos as observações do professor. Foi bastante interessante observar como Sandra havia trazido uma história que ela já estava habituada a contar para seus filhos. Da primeira vez em que apresentou, era possível perceber de modo muito claro a música condicionada pelas rimas da história e pelo longo tempo em que aquela história já foi contada por ela a seus filhos. Após as indicações do professor, Sandra apresentou-se novamente e sua contação já não carregavam os mesmos vícios de antes. No último dia, resolvemos nos reunir no pátio da FACED a fim de abrir para que qualquer transeunte se sentisse convidada (o) a participar. Estendemos cangas no chão e montamos um piquenique com cafés, bolos, biscoitos e sequilhos. Durante a oficina, Alexandre ressaltou que os momentos mais específicos em que contamos histórias estão relacionados com a comida. E, por isso, o piquenique. Entre conversas e comida, revezámos na contação.
(...) Há que se acrescentar outro elemento, que é a formação política. No momento em que se conta ou lê, incluindo a escolha do que se conta ou lê, especialmente quando se mescla estas duas possibilidades, é importante haver uma certa ciência com relação aos elementos ideológicos em jogo, para além das questões estéticas, o que pode implicar em balancear ambas as práticas em sala de aula, em atribuir à cultura popular o que é da cultura popular e, ao mesmo tempo, trabalhar elementos simbólicos que integrem o imaginário dos diversos grupos que inundam o contexto escolar e fazem com que este se repense em diferentes dimensões. (CRISTINE. 2013. p. 168).
A história que eu havia pesquisado durante a oficina fora substituída por outra a partir de uma reflexão sócio política sobre os acontecimentos últimos em que nosso país está vivendo. Como a linguagem (principalmente, a jornalística) tem sido manipulada a fim de manter no poder a classe dominante, levei um conto africano sobre o uso da língua. Como não tive tempo para decorar, precisei usar o texto escrito para apresentar minha contação. Durante minhas leituras bibliográficas sobre conceitos neste âmbito da contação, ficou claro que há uma diferença importante entre o contar e ler histórias.
O contato com o texto escrito, seja ele em que formato for, pelo livro lido ou oralizado, trata-se de uma relação com a leitura (...) O que não significa que leitura e contação de histórias não possam se emprestar elementos, mas isto é algo que precisa ganhar maior clareza, sobretudo no processo de formação de professores e de produção acadêmica a respeito. (CRISTINE. 2013. p. 165).
Claro que ambas podem se alimentar dos elementos uma da outra, mas sem perder o foco na particularidade. Então, utilizei do recurso textual apenas enquanto um elemento do ‘ler histórias’ e busquei ressaltar a oralidade (ritmo, volume, sentimentos) e o ‘olho no olho’. Para concluir, resolvemos não parar por aqui e estamos conversando para darmos continuidade a essa pesquisa com o mesmo grupo que se formou nesses quatro dias além de mais pessoas que participaram apenas do piquenique, mas que também contam histórias.

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